à mesa de natal há tanto para ver!

A família reúne-se à mesa de natal.

E em cada um dos ali presentes, estão também os ausentes.

Os que outrora lá se sentaram e aqueles que nunca puderam estar.

E para além de gente, reúne-se a história viva da família:

as dinâmicas ocultas do sistema,

as lealdades silenciosas

e ecos do passado.

À mesa de natal estão presentes muitos mais do que as cadeiras permitem contar.

Através dos vivos, sentam-se também os mortos.

Nos presentes moram também os ausentes.

Os que partiram, os que se evita recordar, os saudosos e os esquecidos.

Toda essa gente que pertence à história familiar vive,

 silenciosamente,

em quem ali celebra o natal.

À mesa de natal há mais do que gente.

Há histórias e enredos, há segredos mantidos,

há lealdades antigas e amores interrompidos,

há amor que não se sabe expressar.

Há vida e há morte, há alegria e há dor.

Há dinâmicas ocultas que se mostram “sem querer”:

nos lugares que se ocupam à mesa,

nos assuntos trazidos e no que fica por dizer.

Ali, à mesa de natal, há tanto para ver!

Ali, na mesa de natal, há uma hierarquia natural,

que é preciso honrar.

Há os que vieram antes e os que vieram depois.

Há aqueles que se juntaram ao longo da história.

E há os que hoje ali só têm um lugar porque alguém, antes, deixou de estar.

Ali, à mesa de natal, há dar e receber.

Há a dúvida sobre o que oferecer,

há a frustração de não conseguir dar mais,

há a surpresa de desembrulhar

e o desconforto em aceitar.

Há as ofertas que verdadeiramente encontram o outro e as que apenas cumprem uma troca.

E cada troca, seja como for, gera vínculo, pertença e amor.

Ali, à mesa de natal, alguém se senta no lugar que já foi de outro alguém.

Há uma avó que já foi mãe,

que já foi filha,

 que já foi neta.

Há uma cadeira que se junta para receber um novo alguém.

Há cadeiras vazias que, um dia, foram um colo aconchegante.

Há um bebé ao colo. Há uma criança que já não quer colo.

 Há os pequenos, há os grandes.

 E os que não sabem bem que lugar ocupar.

Há os que morreram e ali são lembrados.

E há vivos que se tenta esquecer.

 Há quem chegue triste por vir sozinho,

há quem, secretamente, deseje estar só.

Há os que já não vêm porque agora têm lugar numa outra mesa de natal.

E todos eles, tudo isso, presentes ou ausentes, queridos ou esquecidos, pertencem ali, àquela mesa de natal.

Pertencem as tradições antigas e as novidades adquiridas.

 Pertence a Vida que se fez, exatamente assim.

Pertencem os iguais e os diferentes,

 os certos e os errados,

 os presentes e os ausentes,

 os bons e os maus.

Pertence tudo o que escreveu mais uma frase naquela história familiar.

Tudo isso, todos eles, reunidos ali com Amor.

Um Amor que não fala de presença, de gostar ou bem querer.

Um Amor maior, um amor de continuidade.

Um amor que teme perder os que estão presentes

e que vê como também eles já temeram

 e perderam.

Um amor que reconcilia o que está separado,

 que quebra a fronteira da vida e da morte,

do perto e do longe, do presente e do passado.

Um Amor que, à mesa de natal, pode ser mais evidente.

 Há que saber olhar.

Talvez encontres esse convite da tua mesa de natal:

 a reunião do presente com o ausente,

onde nada nem ninguém fica de fora

– nem da mesa nem do coração.

 Quando tudo tem um lugar, a alma da família pode descansar.

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