A culpa pode ser uma boa desculpa

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Todos nós já sentimos culpa.
Também já podemos ter forçado a que os outros sintam culpa.

 

A culpa é o sofrimento que fica depois de avaliarmos algo como reprovável. Quando a sentimos, é sufocante e pesada. Causa remorsos, desaprovação, auto-crítica… Também podemos culpar os outros e, então, desejar que sintam culpa por nos terem causado algum prejuízo. Nesses casos estamos a tentar transformar a nossa dor através de um juízo reprovador do outro, acreditando que o nosso mau estar será sossegado quando verificarmos que outro também sofre pelo que nos causou.

“Admito que sou culpado e peço-te desculpa!”: quanto de aliviador há em ouvir estas palavras? Porque nos tocam o coração?

No fundo porque sentimos a empatia do outro pela nossa dor e a promessa subjacente de que não repetirá tal atitude danosa. É uma frase que maquilha a verdadeira mensagem: eu vejo a tua dor e desejo que a libertes. A empatia e a compreensão são absolutamente sanadoras!

Se nos tranquiliza o diálogo “Perdoa-me. – Sim, perdoo-te.”, mais ainda nos reconforta o monólogo “eu perdoo-me”. Que maravilhosa leveza sentimos quando nos desamarramos do sentimento de culpa e seguimos erguidos, em liberdade!

Perdoamos verdadeiramente, aos outros e a nós próprios, quando percebemos que os actos praticados foram os possíveis de acordo com as circunstâncias e com a consciência disponível. Desculpamos quando compreendemos que poderemos fazer diferente no futuro e acreditamos ser capazes dessa possibilidade, conscientes de que o passado não se transforma. Perdoamos, enfim, quando adquirimos novas compreensões que expandem o nosso campo de possibilidades e alteram as percepções da realidade.

Porém, observo que a culpa também pode ser uma boa desculpa.

Vejamos: se arrastamos indefinidamente a culpa por determinado episódio e a referimos enquanto parte inevitável dele, pode estar a servir de desculpa. Como se a resolução do prejuízo que causámos fosse sentir culpa. Fica a culpa como solução, sólida e imutável, e não enquanto sentimento que, como qualquer outro, se desvanece e transforma.

E esta culpa como desculpa é um travão na evolução e desenvolvimento pessoal. É negar que existem alternativas comportamentais, é uma rejeição preguiçosa à mudança e actualização. É não ter coragem para imaginar, ponderar e arriscar novas possibilidades. Só encontramos novas soluções e actuações precisamente por experimentarmos o fracasso ou a desadequação de uma atitude. Mas se a culpa se torna numa identificação estática de como nos apresentamos face a um acontecimento passado, se está encerrada apenas numa palavra, num rótulo, que já nem provoca emoções…pode estar a servir de uma boa desculpa! Assim, deixa de ser uma alavanca evolutiva mas é uma etiqueta pendurada a uma situação frustrante que negamos desenvolver e que nos autoriza a ficar quietos, iguais, sem a responsabilidade e autoria da nossa biografia. É a história que nos contamos para evitar renovação – esse movimento assustador que implica perder algo velho e hospedar o novo. E na verdade, só nos assusta o que desconhecemos.

Reconhecemos situações em que até nos é fácil dizer “sinto culpa”, porque isso é uma boa desculpa para não encarar vulnerabilidades? O que estaremos a estagnar e a impedir de acolher? Que resistências há para descartar essa percepção? Se o sentimento de culpa nos atormenta, queremos fazer o possível para transformá-lo e não carrega-lo mais! Porque, por vezes, não fazemos nada?

Provavelmente, num processo de observação sustentada dessa culpa rumo ao perdão, encontram-se outros sentimentos mais profundos e dolorosos; outras necessidades fundamentais por satisfazer e algumas sombras que não sabemos trazer à luz do consciente. E assim, por medo, a culpa estagna um fluxo de expansão e uma oportunidade de mergulharmos no oceano mais precioso e diversificado: nós próprios.

Permitirmo-nos sentir a culpa e descobrir através dela o que podemos desenvolver é um acto de bondade. Acolher e olhar esse sentimento (ou o conceito estagnado que persiste) é abrir a criatividade a novas hipóteses, é possibilitar transformação e conquistar poder de escolhas conscientes. Sentir, atravessar e libertar a culpa é ressignificar os julgados fracassos em oportunidades. Porque a vida oferece-nos isso: uma oportunidade criativa a cada momento. Essa é a liberdade que desejamos e que a memória e a capacidade racional nos oferecem: poder pensar e criar diferente a cada instante.

Fica atento às tuas culpas enquanto desculpas. Há alguma culpa que esteja a servir de boa desculpa? Haverá algo que não queres ver?

Sempre que te deres conta de que sentes culpa, observa onde e como no teu corpo ela se manifesta; se aperta, onde corrói. Ouve as histórias que ela te conta e observa os lugares para onde leva os pensamentos. Não te traves. Mergulha em ti e descobre a maravilhosa transformação a que ela te quer conduzir. Emergirás mais livre e mais inteiro!

Publicado por Rute Cabrita

Bióloga. Terapeuta Transpessoal. Facilitadora de Constelações Familiares. Professora de Yoga para bebés e crianças. Instrutora de meditação. Terapeuta de EFT.

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